segunda-feira, 29 de junho de 2020

Diário de uma quarentena - Choque de realidade

Pra ser sincera, viver uma quarentena estava sendo muito tranquilo pra mim. Eu nunca me importei em ficar sozinha, em ter meu tempo e ficar em casa. Estava levando tudo numa boa.

Coisas pequenas começaram a fazer falta, como tomar um café na padaria ou ir ao parque. Mas, no geral eu estava muito confortável.

Eu resolvi me abster de jornal e notícias para não pesar muito a minha cabeça. Queria passar por tudo isso de forma mais leve possível. Até porque não tinha como saber o que era real e o que era manipulação. Meus vizinhos faziam panelaço todos os dias as 20h e depois os panelaços viraram lives de cantores sertanejos.

Eu estava trabalhando de casa, fazendo minhas sessões de terapia a distância e tudo corria muito bem. Até que fui atingida financeiramente. Minha consultoria não podia mais continuar me pagando como fazia e meu salário caiu drasticamente. Mais de 70%.

Não vou mentir em dizer que aquilo me desestabilizou. E algo pelo qual eu estava tranquila, começou a me preocupar. Acho que nossa primeira reação quando algo nos tira da zona de conforto é ficar pessimista e com medo. Afinal, a partir de agora o futuro era incerto. Eu poderia não ter como pagar minhas contas no próximo mês, quando isso irá se normalizar? Quando essa quarentena irá terminar?

Não ter resposta para nenhuma dessas perguntas me deixou sem chão. Fiquei uns dias remoendo esse assunto e tendo pena de mim mesma, até que eu resolvi parar e pensar sobre aquilo com um olhar de fora. Não adiantava eu ficar pensando no problema, já que eu não tinha controle nenhum sobre ele. Eu precisava pensar nas possíveis soluções, o que eu posso fazer hoje?



Então analisei meus gastos e o que eu poderia economizar. Analisei minhas fontes de renda e comecei a me preparar para o período de escassez. Também fiz uma lista de maneiras de me ocupar nessas minhas "férias não remuneradas", além de atualizar meu currículo e me candidatar para algumas vagas. Pronto, agora eu estava em ação, fazendo algo que poderia ter efeitos positivos, além de só ficar sentada reclamando.

Cortei as sessões de terapia, as comprinhas desnecessárias e passei a cozinhar mais em casa. Minha tia me mandava mensagem todos os dias pedindo para eu ir pra Joinville, com medo do caos que se tornaria São Paulo. Mas, eu preferi ficar em casa.

Logo no começo, descobri que a mãe de uma amiga estava na UTI, com suspeita de COVID. A doença distante era real e estava cada dia mais próxima. Infelizmente ela não se recuperou e acabou falecendo. Depois tive contato com uma pessoa contaminada e o pai dele também foi internado. O fim dessa história foi mais feliz, ele se recuperou e foi pra casa. Será que eu me contaminei? Será que contaminei outras pessoas?

E assim eu recebi o choque de realidade. (continua)


Um beijo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...